GENTE & LIVROS
Harper Lee
«Um Júri nunca olha
para o réu que condenou e, quando aquele júri entrou na sala, nenhum
deles olhou para o Tom Robinson. O presidente do júri entregou um papel
a Mr Tate que, por sua vez, o entregou ao funcionário que o entregou ao
juiz...
Fechei os olhos. O juiz Taylor estava a contar os votos do júri:
«Culpado...culpado...culpado...culpado...». Olhei para o Jem: as suas
mãos estavam brancas de tanto se crisparem à volta do varão e os seus
ombros estremeciam como se cada «culpado» fosse uma facada nas costas».
In Por Favor Não Matem a Cotovia
Nelle Harper Lee, Prémio
Pulitzer da Literatura em 1961, nasceu em Abril de 1926, em Alabama, na
cidade de Monroeville. Descendente de um general sulista da Guerra Civil
Americana, o pai era advogado e editor num jornal.
Vizinha e amiga de Truman Capote, com ele chegou a partilhar a mesma
máquina de escrever. A personagem Dill, do romance To Kill a Mockingbird,
é inspirada em Truman.
Harper Lee estudou Direito na Universidade de Alabama, entre 1945 e
1949, mas 6 meses antes de terminar o curso vai para Nova Iorque atrás
de uma carreira como escritora.
Consegue trabalho numa companhia aérea, e em 1959 acompanha Capote a
Holcombe, Kansas, como assistente de investigação para o livro dele, A
Sangue Frio (1966).
O primeiro romance de Harper Lee - e também o último - To Kill a
Mockingbird (1960), revela-se um verdadeiro sucesso literário e um
clássico da literatura norte-americana. A obra é adaptada ao cinema em
1962, pelo realizador Robert Mulligan.O actor Gregory Peck interpreta o
papel do advogado Atticus Finch.
Harper Lee trabalhou durante anos num segundo romance The Long Goodbye,
e num livro de não-ficção, mas a restante carreira literária de Harper
Lee cingiu-se à escrita de curtos ensaios e artigos, acabando por deixar
Nova Iorque e regressar a Monroeville para viver com a irmã.
A escritora evitou sempre as entrevistas, mas não conseguiu “escapar” ao
reconhecimento por um dos grandes romances do século XX, uma obra de
denúncia ao racismo e apologia de uma América livre. Harper Lee foi
premiada, em 2007, com a Medalha da Liberdade pelo anterior presidente
dos EUA, George W. Bush.
Por Favor Não Matem a
Cotovia. Nos anos da Grande Depressão, Atticus Finch, um advogado viúvo
de uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos tem como missão quase
impossível defender Tom Robinson, um negro injustamente acusado de ter
violado uma jovem branca. Através do olhar de duas crianças, os filhos
de Finch, Scout e Jem, embarcamos na comovente e dura viagem de crescer
numa comunidade presa a preconceitos raciais.
Eugénia Sousa
LIVROS
Novidades literárias
Cavalo de Ferro. A Última Receita,
de Torgny Lindgren. Em 1948, o correspondente de um jornal em Avabäck,
Suécia, é despedido do jornal onde trabalha sob a acusação de inventar
notícias. A notícia de que se fala conta a história de um professor de
escola primária e um vendedor ambulante de tecidos - suspeito de ser um
ex-nazi - que unidos por uma paixão culinária chegam inesperadamente à
«última receita».
Dom Quixote. O Jogo do Anjo, de
Carlos Ruiz Zafón. Do mesmo autor de A Sombra do Vento, surge um dos
romances mais aguardados, O Jogo do Anjo. Na Barcelona dos anos 20, um
jovem escritor às voltas com um amor impossível, recebe de um misterioso
editor a proposta para escrever um livro único em troca de uma fortuna.
Mas o que está em jogo é bem mais que um livro, ou dinheiro.
Gradiva. O Mito das Nações -
Invenção do Nacionalismo, de Patrick J. Geary. O autor desmonta os mitos
nacionalistas que pretendem explicar o nascimento das nações europeias
oferece-nos um livro que virá provar que reduzir as complexidades de
muitos séculos a um únicos momento eterno, não se pode chamar sequer
história e que cada é no final contribuição de muitos séculos e povos.
Difel. Criar um Mundo Sem
Pobreza, - O Negócio Social e o Futuro do Capitalismo, de Muhammad Yunus.
É possível canalizar o poder do mercado livre para erradicar a pobreza a
fome e a desigualdade do mundo? O Prémio Nobel da Paz, Muhammad Yunus
sabe que sim. Fundador do Banco Grammen, e pioneiro de um programa
financeiro inovador, o microcrédito, Yunnus lança aqui a ideia do
negócio social e um modelo mais humano do capitalismo. Um livro maior,
de um autor extraordinário.
Presença. Um Mundo Sem Fim, de
Ken Follett. Depois do êxito de Os Pilares da Terra, o autor regressa à
cidade de Kingsbridge. No ano da Graça de 1327, quatro crianças assistem
à morte de dois homens por um cavaleiro. A partir desse dia ficam unidas
por uma promessa e um segredo que ditam o seu destino. Um Mundo Sem Fim
é um romance em dois volumes.
Piaget. A Linguística Cognitiva
- Compreender como funciona a linguagem, de Nicole Delbecque. Semântica
lexical e cultural, linguística histórica, linguística textual e
comparada, fonética, fonologia, nenhuma disciplina é deixado ao acaso
nesta obra. Um contributo importante para uma melhor compreensão da
linguagem, imprescindível para todos os que tem como instrumento de
trabalho a linguagem.
Europa-América. A Pé Pelo
Paraíso, de Luís Carmelo. Do autor do romance A Falha,
adaptado ao cinema por João Mário Grilo, a Europa-América publicou A Pé
Pelo Paraíso. Seis contos pontuados pela elegância, os desfechos
desconcertantes, a transversalidade do amor e a frágil condição humana.
Campo das Letras. A Terceira
Residência de Pablo Neruda. A Terceira Residência é publicada em 1947,
numa altura em que o poeta deixa Espanha e regressa ao país natal,
Chile. Nele Neruda canta a liberdade e o sangue derramado na II Guerra e
na Guerra Civil Espanhola, transformando-o num dos seus livros mais
apaixonado e sanguíneo. É também com esta obra que prepara o caminho
para uma das suas obras maiores, Canto Geral.
Quimera. O Grande Livro dos
Chefs, de Fátima Moura e Fotografia de Nuno Correia. Quando se juntam
“ingredientes” de primeira água como Henrique Sá Pessoa, José Avillez,
Henrique Mouro, João Antunes, ou Vítor Sobral, o resultado só podia ser
uma obra surpreendente. O grande Livro dos Chefs apresenta 14 dos
melhores cozinheiros de Portugal, biografias, entrevistas truques,
receitas e belíssimas fotos.
PEDRO ROLO DUARTE EM
ENTREVISTA
A Arte de Bem
Comunicar
É jornalista há vinte anos e rendeu-se às
virtudes da blogosfera. Na imprensa portuguesa trabalhou em jornais e
revistas, criou projectos jornalísticos, fez televisão e rádio. O autor
de Janela Indiscreta Pedro Rolo Duarte em entrevista por email ao Ensino
Magazine.
Nestes últimos 20 anos que repartiu
pela imprensa escrita, televisão e rádio, o que é que mudou na forma de
fazer jornalismo?
Mudou tudo, para o melhor e para o pior. Para o melhor, melhorou o
acesso à informação, a banalização do computador, o aparecimento da
Internet, do telemóvel, da TV por cabo, etc. Há maior e mais rápido
acesso à informação, e é possível perder menos tempo com o acessório e
ganhar tempo para o essencial. Para o pior, o mercado tornou-se tão
competitivo que privilegiou a rentabilidade e deixou cair, muitas vezes,
a qualidade. Temos hoje mais comunicação, mas talvez tenhamos pior
comunicação. Temos seguramente um jornalismo mais moderno e cosmopolita,
mas produzido a um preço mais baixo e, por isso, sujeito mais facilmente
o erro. A ideia de que no meio está a virtude nunca foi bem assimilada
pelos patrões da comunicação...
Entre os projectos que envolveram a
imprensa escrita, como o jornal Independente e a revista Visão, criou o
DNA, o suplemento do diário de Notícias, que foi durante 10 anos o
projecto jornalístico mais premiado do país. O DNA foi o projecto da sua
vida, ou esta é uma afirmação que só se poderá fazer em final de
carreira?
O DNA só pode ser, até agora, o projecto da minha vida, porque foi o
único que criei sozinho de raiz, pensei da primeira à ultima página,
apliquei e dirigi livremente durante 10 anos. Mas o jornalismo é algo
que nunca se faz sozinho – por isso, nos projectos da minha vida estão
obviamente também a Visão, a revista K, e tudo o que fiz em rádio e TV.
No fundo, o final da pergunta é que faz sentido: esta é uma afirmação
que só se poderá fazer em final de carreira...
Qual é o papel que a blogosfera
desempenha na informação e no espaço do debate nacional?
A blogoesfera é, neste momento, a principal rampa de lançamento para
novos cronistas de imprensa, rádio e TV. Ou seja: é a montra dos novos
talentos. Como num Chuva de Estrelas, todos tentam a sua sorte. Como há
muito talento à solta, há muito para descobrir - e nesse medida, é
também um laboratório de novas ideias, formas de escrita, pensamento.
Não se pode viver sem a blogoesfera e pretender estar a par do que se
passa...
No seu livro Sozinho em Casa afirma
«Eu não quero deixar marca. Eu não quero nada. Com os anos, com os
pontapés inesperados que levei, percebi que estes vinte anos são apenas
uma soma de acasos, circunstâncias, momentos. Não foram planificados nem
estrategicamente cumpridos - foram vividos, dia-a-dia. O que fica do que
foi feito é o prazer que deu o melhor que consegui fazer». A melhor
recompensa para um trabalho é esse mesmo trabalho?
A melhor recompensa para um trabalho, sei-o hoje melhor do que alguma
vez julguei, é poder ter mais trabalho... E obviamente, vê-lo
reconhecido por quem o consome.
O país pode ouvi-lo num programa de
rádio que olha o mundo dos blogues. E o autor do programa como é que vê
a Janela Indiscreta?
Com humildade, procurando aprender todos os dias, sabendo que não há
passos sem erros nem ousadia sem exagero.
Novo ano lectivo, a velha discussão:
processo de integração na vida académica, tradição humilhante, praxes
sim ou não e porquê?
Achei sempre que a civilização tenderia a evoluir – o que significava,
no que às praxes diz respeito, que um dia acordaríamos sem elas, por
serem ridículas e sem qualquer sentido estético, cultural, moral, ético
ou de cidadania. São uma patetice pura. Mas a raça não evolui tanto
quanto desejamos, nem à velocidade a que desejamos...
A concentração dos meios de
informação nas mãos de grupos económicos é o maior problema que a
impressa livre enfrenta?
Não. O maior problema que a imprensa livre enfrenta é ausência de
leitores com vontade de pagar a imprensa que querem ler. Com a rádio, a
TV, a net e por fim os jornais gratuitos, os consumidores acharam óbvio
que a informação não se deve pagar, e já não distinguem um jornal pago
pela sua qualidade, opinião, etc... Vão ser os consumidores a pagar essa
sua peregrina ideia, porque vão deixar de ser bem informados. O que
daqui resulta é uma imprensa financeiramente pobre, por isso mais
dependente dos tais grupos económicos e dos seus interesses...
Assina uma crónica numa revista
feminina. Escrever para as mulheres é diferente de escrever para o outro
género?
Quando escrevo penso em leitores, de forma genérica. Não sei responder
melhor a esta pergunta.
Uma provocação: A sua Crónica na
Revista Lux Woman tem o título Estado Civil: Div. O escritor francês
Honoré de Balzac disse: «Salve Deus as mulheres do casamento com homens
que escrevem livros.». Quer comentar?
Honoré de Balzac tinha toda a razão. Mas confesso que acredito no dia em
que telefone à directora da Lux Woman com a notícia da mudança do nome
da coluna para “Estado Civil: Cas.”...
A atribuição do Prémio Nobel da
Literatura ao escritor Le Clézio; os computadores Magalhães para as
crianças do ensino básico; a crise financeira mundial; e a morte do
actor Paul Newman são alguns dos acontecimentos da actualidade
analisados no seu blogue. Qual a notícia que lhe apetecia discutir
agora?
Tenho pena que se goze, se diminua, se menospreze, e se ridicularize
tudo o que tem a ver com o computador Magalhães. Infelizmente, quem
escreve nos jornais e tem acesso à rádio e à TV - contra mim falo... –
compra com facilidade um portátil sofisticado e paga sem problemas a
banda larga móvel... Mas eu acho que, para muitos milhares de famílias,
a vida pode ter começado a mudar, para melhor, no dia em que uma criança
chegou a casa com um computador, internet, e tudo o que isso pode
significar...
Eugénia Sousa
O HOMEM E O SONHO
RVJ lança novo livro
de poesia
“O homem e o sonho” é o novo livro de
poesia de Pedro da Raia, pseudónimo utilizado por Adérito Dias, o qual
foi apresentado, no último mês, no Museu do Azeite, em Sarnadas de
Ródão. “Esta obra nasceu do amor que tenho por estas terras”, justifica
o autor.
Editado pela RVJ – Editores, com um design de Carine Pires, o livro está
dividido em três partes (Sonhos, Realidades e Esperanças), alguns dos
quais declamados por Eugénia Sousa, da editora, acompanhada pela música
da viola e da flauta de António Marcos, um músico que ainda cantou um
dos poemas do primeiro livro do autor.
A obra de Adérito Dias, ou Pedro da
Raia, foi referenciada como sendo “pioneira no Concelho de Vila Velha de
Ródão. Coube-lhe a si mostrar a outros escritores da região que é
possível editar. Depois do seu primeiro livro, muitos outros autores
vieram ter connosco para que os apoiássemos”, disse a presidente da
Câmara de Vila Velha de Ródão. Para a RVJ Editores, esta “é mais uma
obra de qualidade escrita por autores da região, o que demonstra que é
possível concretizarem-se muitos sonhos”.
RVJ - EDITORES EDITA
Princípios e Valores
A Associação Nacional de Professores (ANP)
conta agora com um novo livro, Princípios e Valores na Génese da
Associação Nacional de Professores, da autoria de Pinho Neno, chancela
da RVJ Editores.
Ao longo das cerca de 200 páginas, Pinho Neno explica a origem desta
Associação de interesse Nacional, traçando o seu percurso desde o
momento de projecto até à idade adulta. Sobre a obra, escreve o próprio
autor na Nota Prévia «Assim não farei mais do que emitir a minha opinião
pessoal, na certeza assumida de que, deixando aqui registado amplo
relato da intervenção de que fui protagonista neste processo, ficará
aberto espaço para quer outros de idêntica forma o façam, contribuindo
de maneira útil e eficiente para a anelada clarificação e consequente
coerência ideológica da ANP».
PELA OBJECTIVA DE J.
VASCO
As minas de S.
Domingos
Quem vai de norte deve dirigir-se a Beja
e depois seguir até Mértola para, finalmente, seguir no sentido de S.
Domingos. Aí encontramos uma paisagem excepcional de luz e cor que
enquadra importantes ruínas do antigo complexo mineiro local, agora
desactivado. As Minas de S. Domingos (de onde, no século passado, se
extraía o cobre) fazem parte do roteiro das minas alentejanas,
juntamente com as de Aljustrel, Neves Corvo (Castro Verde) e Lousel
(Grândola).
Música
Keane - Perfect Symmetry.
“Spiralling “ esteve disponível para download no site oficial da banda e
durante uma semana teve mais de meio milhão de downloads, foi a primeira
amostra de “Perfect Symmetry”, terceiro disco de originais deste trio
britânico, que entrou directamente para a liderança do top de vendas nas
terras de Sua Magestade. Neste mês de Novembro os Keane regressaram a
Portugal e tiveram casa cheia no Coliseu dos Recreios em Lisboa, num
espectáculo de promoção ao novo trabalho. “Perfect Symmetry” teve a
produção de Stuart Price que ainda à pouco tempo trabalhou com Madonna,
e Jon Briom que ja colaborou com Kanye West. Depois de alguns problemas
com o vocalista da banda, Tom Chaplin, a banda deu a volta por cima.
Apresentou um registo inovador, com mais ritmo , e procurando uma
sonoridade diferente com uma veia funk, e não utilizou a mesma fórmula
dos anteriores trabalhos. É um óptimo disco este “Perfect Symmetry”,
destaque para o primeiro single oficial “The lovers are losing”, e para
a as faixas “Black burning heart”, “Again and again”e “You dont see me”.
James Morrison - Songs for you,
truths for me. James Morrison foi uma das grandes revelações do ano
de 2006, “ You give me something” foi um dos melhores temas editados
nesse ano. Dois anos depois o britânico, agora com vinte e quatro anos
editou o seu segundo trabalho “Songs for you, truths for me”. Este álbum
veio confirmar o talento vocal de James Morrisson, num registo entre o
pop e o soul. Neste disco o cantor fala sobre os seus amigos e sua
familia, e revela mais maturidade nas letras dos temas. Nelly Furtado é
a convidada especial deste “Songs for you, truths for me”, participa no
tema “Broken stings”, uma faixa colorida e cheia de ritmo. A escolha
para o primeiro single, não podia ser melhor “You make it real” é um
tema com uma melodia que conquista rapidamente a atenção dos nossos
ouvidos. Destaque para o single “You make it real”, e para os temas
“Save Yourself”, “Please don´t stop the rain” e “Broken stings”. É uma
boa banda sonora pra descontrair...
Anastacia - Heavy rotation. 2008
é um ano de mudanças para Anastacia. A Norte Americana mudou de look, de
editora e utilizou uma sonoridade diferente. Depois de ter vendido quase
vinte milhões de discos, a cantora aposta agora neste “Heavy rotation” e
contou com a colaboração de Ne-yo, Lester Mendez, Rodney Jerkins e JR
Rotem na produção. Anastacia poderia ter feito algo melhor neste quarto
disco de originais, o primeiro single “I can fell you” tem um melodia
que não convence, e a remistura feita por Max Sanna & Steve Pitron é
muito superior á versão original, a poderosa voz de Anastácia cola muito
bem com batidas mais fortes. “Heavy rotation” apresenta onze novos temas
entre o pop, funk e o house, a cantora percebeu que pode facilmente
incendiar as pistas de dança com a sua voz, mas não utilizou a fórmula
certa neste álbum! Das faixas incluidas neste neste registo destaque
para os temas “Defeated”, “In summer”, “Same song” e “I call it love”.
Com a proximidade do natal multiplicam-se as edições, que neste caso têm
um nivel médio, Anastia poderia ter feito muito melhor...
Hugo Rafaeli
BOCAS DO GALINHEIRO
Que viva a comédia
Na história do cinema, a comédia é um
género transversal. Ou pelo menos alguns pensam que é. Daí que, mais
coisa menos coisa haja realizadores que se aventuram no género com
resultados pouco gratificantes. Para eles e para o género. Não admira o
desdém com que os espectadores reagem ao anúncio da estreia de mais uma
comédia. Torcem o nariz. Pura e simplesmente. Por mim reajo exactamente
ao contrário. Não resisto a uma boa comédia. E nestes últimos tempos
tive oportunidade de assistir a duas. E das boas.
A primeira, e que me deixou francamente surpreendido foi “Tempestade
Tropical” (Tropic Thunder), de Ben Stiller. O mais belo filme
anti-guerra que se possa imaginar. Um delírio bélico que goza
perdidamente com os filmes de guerra. Tão estúpida a guerra é!
Dois actores a atravessarem momentos menos bons nas respectivas
carreiras (Ben Stiller, que acumula a realização com a interpretação, e
Jack Black) aceitam participar num filme com um actor cuja carreira
assenta em grandes desafios interpretativos com base no “método” (Robert
Downey Jr.) e um rapper estreante nas lides cinematográficas que também
comercializa uma bebida energética e que no filme assina Alpa Chino (Brandon
T. Jackson). Por traz do filme um produtor sem escrúpulos magnificamente
interpretado por um irreconhecível Tom Cruise, um suposto veterano do
Vietname, Nick Nolte, autor do livro em que se baseia o filme e um
realizador inglês para dirigir este superprodução em que nada corre bem.
Solução: largar a equipa na selva e com câmaras ocultas filmar em
ambiente real. O realizador morre numa mina verdadeira e os actores,
perdidos na selva, acabam por se ver envolvidos numa verdadeira guerra
com um grupo de narcotraficantes comandados por, pasme-se, um miúdo, mas
com a convicção de que estão a filmar a sério à frente de câmaras
ocultas. Claro que perante os perigos que enfrentam começam a vir ao de
cima os problemas entre os actores e os tiques de vedeta. E já estamos
numa dupla paródia, a da guerra e a do mundo do cinema, onde afinal nem
tudo o que parece é.
As semelhanças com alguns filmes sobre a guerra do Vietname não são pura
coincidência, e é com eles que se mete, dos Rambo a “Apocalypse Now “,
passando por “Platoon”. Não escondendo o que cita, a evidência é total,
nas cenas e nos diálogos, Ben Stiller dá-nos um filme de antologia. Uma
comédia que ombreará com outras que também deram coça na guerra pelo
humor, de “Dr. Strangelove” a “M.A.S.H.”. Imperdível.
Noutro registo, o da comédia com traços de humor negro, os Irmãos Coen
regressaram em grande depois da conquista dos Oscar com “Destruir Depois
de Ler”. Uma arrepiante incursão pelo mundo dos serviços secretos e por
outro mais preocupante: o da estupidez humana. É que tudo no filme
parece uma conspiração de estúpidos. Os Coen juntam à sua já longa
galeria de destrambelhados, basta lembrar para além do “Grande Lebowski”,
esse super personagem interpretado por Jeff Bridges, o Barton Fink, de
John Torturo, ou o Ulysses Everett de George Clooney em “O Brother,
Where Art Thou?” um soberbo Brad Pitt, como Chad Felheimer, um personal
trainner que ao encontrar no ginásio um cd com as memórias de um
ex-agente da CIA, se vai atravessar na vida de Osbourne Cox (John
Malkovich) chantageando-o por causa do cd e porque a sua colega quer
fazer algumas plásticas e não tem dinheiro. Só que não só o cd não tem
material classificado, como tudo não passa de uma sequência de
coincidências que trazem ao de cima as fragilidades da tal estupidez que
a tudo leva: à ganância, à traição e a não se ver o que está ali mesmo à
frente dos olhos. O que, obviamente, só pode levar à asneira e a uma
sequência imparável de mal entendidos. Os Coen no seu melhor!
De comédia viveu também o cinema português dos anos e 40 e 50 do século
passado. Uma delas é sem dúvida “O Costa do Castelo”, de Arthur Duarte.
“Neste filme”, escreveu o Dr. Félix Ribeiro, “Arthur Duarte deu uma bela
oportunidade a uma jovem, Milú, dotada de beleza e simpatia radiosas,
cantando agradavelmente melodias que se tornariam, a breve trecho,
populares, e actuando em frente da câmara com uma desenvoltura e um
acerto que bem depressa conquistaria o apreço e a simpatia do público,
levando-a a aparecer em muitos outros filmes, alguns deles do seu
descobridor, embora antes houvesse aparecido num curto momento na récita
de amadores infantis que Beatriz Costa organizava em ‘Aldeia da Roupa
Branca’. Nascera assim, no horizonte modesto do nosso cinema, com o seu
papel de jovem sensual, agradável de ver e ouvir, a Luisinha de ‘O Costa
do Castelo’, a nossa primeira estrelinha cinematográfica.”
Maria de Lurdes de Almeida Lemos, Milú, nascida em Lisboa em 1926,
morreu no passado dia 5 de Novembro. Vedeta da rádio, no cinema
participou noutros grandes êxitos da altura como “O Leão da Estrela” ou
“Os Três da Vida Airada”, para além de ter brilhado na revista. Em 1980
participou em “Kilas, o Mau da Fita”, de José Fonseca e Costa e
António-Pedro Vasconcelos fez em 2007, sobre ela, o documentário “Milú,
a Menina da Rádio”, uma peça fundamental para que não caia no
esquecimento uma grande senhora do nosso “modesto” cinema!
Luís Dinis da Rosa
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