Director Fundador: João Ruivo    Director: João Carrega    Publicação Mensal    Ano XI    Nº122    Abril 2008

Opinião

CRÓNICA

Analfabetismo digital zero

E, de novo, Abril! Quem diria que haveríamos de cá chegar? Na verdade, grande parte do que conquistámos em 25 de Abril de 1974 não chegou até hoje. Pereceu na luta de classes ou simplesmente desvirtuou-se pelo contra vapor de uns, pelo deixa andar de outros e pelo saudosismo reaccionário de uns quantos, nem sempre às claras, quase sempre com argumentos contrários às intenções.
Eis como é dizer o mesmo em poesia:

Em Abril, já o grito de revolta era maduro,
já o trigo intenso rompia na seara.
Em Abril, já a claridade era sol puro,
que, pela bondade, era ainda coisa rara.

Ao matiz das papoilas nada se compara,
nem aos cravos ardentes, que do escuro,
brotaram rubros, naquela manhã clara,
ao mesmo tempo a luz e o seu futuro.

Nada a declarar. Além da liberdade,
em rascunho, alguns apontamentos
clandestinos para esse Abril de tenra idade.

Cresceu. Foi Maio noutros momentos,
foi em pouco tempo uma eternidade
e foi depois Novembro e outros ventos.

Apesar de tudo, não é o destroçamento das grandes conquistas materiais o que mais me dói. Não estou a menospreza-las. Eram de facto a base essencial para a construção dum país moderno e próspero. Eram e continuam infelizmente a ser, porque nada se constrói aniquilando em nome de falsas modernidades, por mais mansas que sejam as falas.

O que mais aflige é a troca da solidariedade pelo egoísmo; da amizade e camaradagem pelo ódio e a arrogância. Este é o veneno que mina a sociedade portuguesa em 2008 – trinta e quatro anos após a revolução dos cravos – tem patente nacional e são conhecidos os fabricantes. Porém, ao contrário do comum das contrafacções, para estes não se pede para que a ASAE intervenha, lhes apreenda a mercadoria e os meta na ordem, mas ao povo.

João de Sousa Teixeira
teijoao@gmail.com

 

 

 

CONTRABAIXO

Brancura

Há um poema de Yannis Ritsos que, na tradução de Eugénio de Andrade, se titula como esta crónica e que regressa frequentemente à minha memória. Diz assim:

Ele poisou a mão sobre a página
para não ver a folha branca.
E viu em cima a mão nua. Então
fechou os olhos, e sentiu
subir por ela a tenebrosa,
indescritível brancura, amor-talhada.

E quando, há pouco, me sentei em frente à folha branca, no computador, ele voltou. Não é que eu não goste que a poesia me interrompa. Até lhe agradecia que fosse mais frequente, mas este foi um sinal que não posso ignorar. Tinha pensado escrever sobre a minha recente experiência empresarial, com a Apsara, Gestão Cultural, mas vou deixar esse tema para outro mês pois o ministro da cultura revelou há uns dias que está nos seus planos mudar a legislação que diz respeito ao apoio às Artes.

A Portaria que regulamenta o apoio às artes é a n.º 1321 - 2006, de 23 de Novembro e teve aplicação no ano passado e está neste momento a decorrer o concurso lançado em Janeiro, pela Direcção Geral das Artes. A referida Portaria foi muito contestada, na minha perspectiva com razão, por diversos artistas, associações e plataformas que congregam importantes agentes culturais mas lá entrou em vigor e começou a ser aplicada. Para se ter uma ideia sobre a operacionalidade da coisa e para me reportar apenas a um projecto no qual estive envolvido, bastará dizer que o pagamento de um apoio ao Primavera Musical – Festival Internacional de Música de Castelo Branco foi feito em Dezembro, tendo o mesmo decorrido em Maio desse mesmo ano. Sei que muitas histórias como esta podem ser contadas por outros e a pergunta que se impõe fazer é: será que tem mesmo de ser assim? Por outras palavras, até que ponto o sacrifício terá de chegar no plano pessoal e institucional, até que muitos projectos definhem e simplesmente acabem?

Como já referi, o concurso para este ano está a decorrer, mas quando escrevo esta crónica já passou metade de Abril e ainda não há sinais de resultados, o que não augura nada de substancialmente diferente relativamente ao que se passou no ano passado. Ou seja, a experiência não serviu para mudar nada para melhor.

E ainda não passaram dois anos sobre a aprovação desta legislação e já o ministro anunciou que vai mudar as regras. Pode dizer-se que ainda bem e eu espero realmente que sim, que se mude para melhor. O que começa a ser insuportável é este estado permanente de mudança, instabilidade e asfixia que não dá margem nenhuma aos novos projectos e criadores e torna difícil a sobrevivência de projectos já mais sedimentados e estruturados.

É por estas e por outras que recentemente, num daqueles inquéritos semanais com as mesmas perguntas para diferentes interlocutores, quando questionado sobre qual o meu maior sonho, respondi: não emigrar.

Carlos Semedo 
carlossemedo@gmail.com
 

 

 

 

OPINIÃO

Cartas desde la ilusión

Querido amigo:

Hoy voy a contarte mi experiencia con el ejercicio “Por qué somos diferentes”, tal como quedamos en mi carta anterior.

Pero antes quiero decirte que, aprovechando la proximidad de las vacaciones de Semana Santa y Pascua, indiqué a mis alumnos que hiciesen un cuaderno “de bitácora” en el que describieran todos los acontecimientos que iban a vivir durante este período de vacaciones. Pero, en esta ocasión, les dije que, una vez hubiesen escrito lo acontecido durante el día, colocasen una letra entre paréntesis al final de cada frase o párrafo de la siguiente manera: una e (e) indicaría que lo que escribieron se refería a una emoción o un sentimiento, una p (p) haría referencia a un pensamiento o un conjunto de pensamientos, y una c (c) significaría una conducta o un conjunto de conductas. Cuando vuelvan de las vacaciones, analizaremos juntos la cantidad de emociones, pensamientos y conductas que se relataron entre todos, y trataremos de sacar nuestras conclusiones, tanto en general como, en la medida de lo posible, para cada uno de los alumnos.

Pero volvamos al ejercicio sobre las diferencias interindividuales.

Comencé dejando que mis alumnos se organizaran en pequeños grupos y eligieran al portavoz. Una vez constituidos los grupos, les indiqué que tenían que aportar razones por las que las personas somos diferentes. Una vez finalizada la discusión en pequeño grupo, comenzamos una puesta en común de las razones que se habían expuesto en cada grupo. Yo fui anotando cada una de ellas en la pizarra.

Como puedes imaginar, las razones aducidas fueron variopintas, pero muchas de ellas muy sabias, de las que nacen de la sabiduría de los niños.

Una de ellas me llamó la atención. Un grupo apuntó: “porque todos hacemos cosas bien y cosas mal” (que traducido a nuestro lenguaje más categorial, podría decir “porque todos tenemos aciertos y cometemos errores”, es decir, “porque nadie es perfecto”).

Esto me recordó la novela de Aldous Huxley titulada “Un mundo feliz” y me hizo pensar.

Entonces pregunté directamente a mis alumnos: “¿Somos perfectos los seres humanos?” Su respuesta fue unánime: ¡No!

A la vista de esta convicción, les conté la historia de “La vasija”. Es una fábula que narra la historia de una vasija agrietada con la que un aguador de la India transportaba agua… Como hoy no tengo espacio, te la contaré en mi próxima carta. Pero lo importante es que me ha dado pie para poner en marcha otro ejercicio para la mejora de la autoestima de mis alumnos. Lo llamaré: “cómo encontrar nuestro lado positivo y el lado positivo de las cosas”, con lo que espero enfatizar el hecho de que somos diferentes porque todos “hacemos cosas bien”, como dijeron ellos en el ejercicio de las diferencias.

Un abrazo, con mis mejores deseos de “salud y felicidad”.

Juan A. Castro
juancastrop@gmail.com

 

 

 

DESTAQUE

Musicalbi faz 25 anos

O Musicalbi faz este ano 25 anos de carreira. Para trás ficam inúmeros espectáculos em Portugal e no estrangeiro. Como tem sido percurso do grupo, e quais as recordações que guarda do início?

O Musicalbi ao longo dos anos pelas centenas de concertos que efectuou em Portugal e no Estrangeiro tem adquirido um estatuto de referência no panorama da música tradicional portuguesa. Em todos os concertos não há qualquer um que se tenha demarcado pela negativa, pelo contrário foi um percurso sempre cheio de bons momentos, principalmente pelo carinho que o público foi tendo por este grupo ao longo dos anos. As melhores recordações desde o início são sem dúvida o 1º Concerto no Cine Teatro Avenida a 17 de Junho de 1983, organizado pela Orquestra Típica Albicastrense, que apesar deste grupo não lhe pertencer nada em termos institucionais, mas é, considerada por nós como a nossa mãe, pois foi no seio desta Orquestra que nasce a 1ª formação do Musicalbi. Uma outra recordação foi sem dúvida a nossa participação, e o primeiro prémio que obtivemos no Festival “Á Procura de novos valores” organizado pelo Sindicato de Artes e Espectáculos que teve lugar no Coliseu dos Recreios no dia 11 de Maio de 1984. Depois disto sentimos então que o Musicalbi poderia ser um verdadeiro grupo de música popular, e não uma brincadeira de miúdos como era levado até à altura. Um outro marco importante foi a nossa primeira digressão pelo estrangeiro, nomeadamente a terras do Oriente, com espectáculos realizados na cidade de Xinuhi e em Macau em Outubro de 1994.
 

O Musicalbi passou por mudanças a nível de sonoridade. Que transformações foram essas?

Hoje o Musicalbi tem uma sonoridade totalmente diferente do início ou mesmo de há dez anos atrás. Apesar de continuarmos a ser um grupo de música tradicional portuguesa, efectuando um trabalho ao nível da recolha e divulgação, o grupo foi introduzindo novos instrumentos e novos arranjos criativos trazendo assim novas sonoridades para a música tradicional, cruzando ambientes musicais portugueses com celtas, galegos, árabes, entre outros. Assim hoje o Musicalbi afirma-se como um grupo de música tradicional/folk sem dúvida às transformações que se têm vindo a acentuar.
 

Desde 2000 que o grupo tem a cargo a realização do Entrelaços – Festival Internacional de Música Tradicional/Folk de Castelo Branco. Qual o balanço que faz dessas edições?

O Balanço é bastante positivo, tendo em conta as já 8 edições realizadas, sempre com a vontade que a próxima edição seja melhor. É claro que não tem sido fácil, devido às dificuldades financeiras com que nos deparamos todos os anos, porque um Festival com um orçamento arrojado é sem sempre diferente, quando temos um orçamento reduzido como o nosso. Mas dentro das nossas possibilidades temos tentado sempre trazer à cidade grupos de muita qualidade, da chamada World Music, o mais diversificado possível, e que sejam essencialmente uma novidade para os albicastrenses.
 

Estiveram em Maio de 2007 a representar Portugal no 4º Festival Internacional de Ollin Kan Tlalpan, no México. Como surgiu a oportunidade e como foi a experiência?

Sendo este um dos Festivais mais importantes do mundo, foi sem dúvida uma participação que trouxe ao Grupo uma experiência única e uma responsabilidade acrescida, pois não só estávamos entre os melhores grupos da World Music dos cerca de 40 países e mais de 100 grupos que participaram, como também tínhamos a defender a música tradicional portuguesa, o nosso país e a nossa cidade. O Musicalbi realizou três concertos, e em todos o entusiasmo do público foi talvez o ponto alto da nossa deslocação. A nossa ida, ou seja a escolha de um grupo do interior do país, não muito conhecido internacionalmente foi sem dúvida uma grande surpresa para muitos, mas tudo isto se deve ao trabalho positivo que o Musicalbi tem desenvolvido nos últimos anos, e este trabalho foi reconhecido por um produtor de espectáculos “Carlos Bartilotti” que apostou no Musicalbi, e pelo que se passou no México foi uma aposta ganha.
 

A aposta é na crescente Internacionalização do grupo?

Podemos dizer que sim. Lembre-se que logo a seguir ao México o Musicalbi este presente num Festival na cidade de Pulawy na Polónia, e seis meses depois foi novamente convidado a estar neste país para dois concertos. Isto mostra que o Musicalbi de hoje, tem todas as condições para fazer grandes prestações nos vários Festivais que se fazem por esse mundo, pois a sua qualidade está ao nível de outros grupos estrangeiros. Pena é que talvez a nossa interioridade nos tenha dado menos possibilidade para o fazermos mais vezes, pois quem diz que uma pequena cidade do interior como a nossa, tem um dos melhores grupos Portugueses de música Tradicional? Além disso é bom que as pessoas não se esqueçam que o Musicalbi é uma Associação sem fins lucrativos(...).
 

Mastiço é o nome do último trabalho discográfico do Grupo. Como caracteriza esse trabalho?

Mastiço, é o regresso dos Musicalbi ao mundo discográfico, depois de sete anos de interregno desde o seu último CD intitulado “Entrelaços” Neste novo trabalho há uma maior maturidade na composição e na interpretação dos músicos. O alinhamento é bastante variado, começando com a música tradicional portuguesa, do Minho ao Alentejo, viajando até à Galiza, Bretanha e países Árabes. Este trabalho assenta numa tónica muito peculiar que é a riqueza tímbrica de todo o CD, este facto deve-se à polivalência dos músicos que executam vários instrumentos, nomeadamente a harpa celta, violino, gaita-de-foles, voz, flautas, guitarra, piano, bandolim, bouzuki, baixo, acordeão, bateria, percussões de vários países.

Eugénia Sousa

 


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